O percurso retrospectivo de Muñoz é uma constante encenação, a multidão de “Many Times”,
a rua dos “Hotel Declercq” e outras varandas anónimas,
o tapete oriental de “Minaret for Otto Kurz”,

as escadas de caracol (“Spiral Staircase”)
e até corrimãos (“El Pasamanos”)
Em “One Figure” vemo-nos a nós próprios, ou não fosse o espelho metáfora para outras tantas extrapolações sobre o duplo e a identidade.
As figuras de Muñoz não são, contudo, a matéria tradicional da escultura clássica. Situadas em ambientes arquitectónicos, podem estar sentadas em bancos ou colocadas a meia altura numa parede.
São, com frequência, figuras de circo, de teatro, do cinema ou de um quadro de Velázquez – anões, pontos de teatro, bailarinas – imobilizadas num momento e subentendendo uma história implícita que ao público cabe imaginar.
Têm uma estatura inferior à dos humanos, parecendo feitas à escala real quando observadas à distância, a ilusão óptica é frequentemente utilizada.
Ao longo da sua carreira, precocemente terminada, Muñoz conseguiu devolver à figura humana um lugar central na arte mas recolocando-a, através da sua perspectiva única, num local ao mesmo tempo familiar e estranho.
Num dia chuvoso, Serralves bela como sempre...
É pena o Porto não ter os seus jardins, povoados de memórias de grandes escultores, no jardim da Cordoaria, Juan Muñoz retratou-nos...
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