
"A Mansarda"
CIRCOLANDO

Do novo circo a um teatro dançado, do teatro de objectos ao concerto encenado, são múltiplas – e, por vezes, contraditórias – as etiquetas invocadas para catalogar o trabalho de uma companhia como a Circolando. Espectáculo que encerra a trilogia dedicada à Poética da Casa, Mansarda prolonga o carácter inclassificável deste teatro, que tanto se faz de esculturas, instrumentos musicais inverosímeis (inesquecíveis, as máquinas de costura reconvertidas numa orquestra de sanfonas), projecções vídeo, instalações e melopeias, como renuncia ao texto, elemento teatral de eleição. Aprofundando o peculiar método da companhia, baseado na livre associação de ideias e referências, também Mansarda se ergue sobre uma babel de matérias: textos de Gaston Bachelard, desenhos e instalações de Louise Bourgeois, escritos de Tonino Guerra e Cesare Pavese, imagens de Chagall, fotografias de George Dussaud… Depois de Quarto Interior (2006) e Casa-Abrigo (2008), espectáculos que o TNSJ em boa hora co-produziu e estreou, Mansarda instala-nos nesse lugar entre céu e terra – o sótão, as águas-furtadas –, propondo-nos um balanço da experiência da casa, espaço-tempo habitado por fiapos de sonho e lembrança.

Espectáculo de encerramento do ciclo Poética da Casa, Mansarda propõe uma súmula das várias ideias de casa que com ele queremos abordar: casas feitas de pele-memória que existem fora do tempo. Casas com raízes e sabor a terra, sensíveis ao ciclo das estações. Casas-corpo-árvore, pés mergulhados na terra e cabeça a tocar o céu. Casas com as memórias de um mundo rural antigo, com a lembrança dos campos e dos animais. Casas com os serões de trabalho e festa, com os medos da escuridão e o secreto desejo da viagem. Casas com ninhos prestes a voar. Casas que integram o vento e a chuva e acolhem um sonho de mar. Casas-ilha, casas flutuantes, casas da eternidade. Casas com as paisagens da imensidão.

Ao longo da vida vamos construindo um sótão-abrigo onde guardamos os nossos sonhos-lembrança fundamentais. As vivências, as histórias, as imagens que fomos retendo para podermos a elas voltar sempre que o desejamos. No fundo, uma casa para o nosso coração. Uma casa que se confunde connosco e sempre nos acompanha.
Velhos, visitamos estes sótãos com raízes numa infância longínqua e fazemos soar livres os fios da memória. Baralhamos a curva do tempo. Caminhamos em direcção aos inícios, vamos para o lugar onde se encontra a morada dos nossos devaneios...
Os escritos de Bachelard e os desenhos, as esculturas e as instalações de Louise Bourgeois serão o ponto de partida para um diálogo com múltiplos autores: Tonino Guerra, Miguel Torga, Cesare Pavese, Mia Couto, Chagall, Dussaud. A máscara, o palhaço, a dança com cadeiras, roupas, ramos, palha, a música das máquinas de costura-sanfona, a voz e o canto serão matérias certas no trabalho de improvisação teatral.








