
Este é um dos mistérios desta cidade...
Desde ontem e ao longo desta semana que se procede, na Rua José Falcão, na Baixa do Porto, à transferência dos trabalhos que ao longo do último ano têm decorrido num discreto armazém desta rua para uma casa centenária, mesmo ao lado. Esta casa acaba de ser renovada, recuperou o brilho dos azulejos verdes e o rendilhado decorativo. Construído em 1903, o edifício que foi casa de família e acolheu a Associação Cristã da Mocidade, antes de cair na ruína, vai ser agora um moderno atelier de alfaiataria, destinado à arte mais antiga deste ofício artesanal.
A iniciativa, pioneira nos seus contornos entre nós, partiu de um financeiro e mediador de seguros francês, Gilles Zeitoun, que desde há mais de uma década está ligado à associação Les Grands Ateliers de France e que nutre uma especial admiração pelo artesanato e pelo trabalho da alfaiataria em particular, por via familiar, querendo assim dar continuidade à arte do seu avô.
Em Paris, onde vive e trabalha, Zeitoun está associado à casa Torcello, de um velho mestre alfaiate de origem espanhola, José Gonzalez, que fabrica fatos à moda antiga para os principais estilistas da Europa. A progressiva perda da mão-de-obra especializada neste sector em França fez os dois empresários procurarem esses saberes artesanais noutros países. "Pensámos no Leste, na expectativa de que aí se mantivessem esses lavores, e fomos à Polónia, Roménia e Bulgária. Não encontrámos nada", explica Gilles Zeitoun. Alguém os aconselhou, então, a procurar em Portugal. Vieram parar ao Porto, há quatro anos, e encontraram na cidade não só costureiras e alfaiates que continuam a saber trabalhar os tecidos à moda de antigamente, como a casa onde de imediato imaginaram poder instalar o seu atelier.
"O prédio estava todo em ruínas, mas fiz questão de manter a traça original, adaptando-o apenas naquilo que era indispensável para criar boas condições de trabalho para os artesãos", diz Zeitoun. No rés-do-chão vai ficar a parte social de apoio aos 40 trabalhadores ("todos recrutados no Porto e na região", reclama o empresário francês), com os vestiários, cantina e até uma pequena esplanada interior, mas também a sala de corte dos tecidos. No 1.º andar, ao qual se acede por uma daquelas escadarias tradicionais das casas do Porto, fica a recepção e a administração e, nas traseiras, naquela que foi a parte nobre do edifício - uma sala de espectáculos envolta com uma galeria -, ficam as máquinas de costura e de formatação dos tecidos. Aqui foi feito o único acrescento estrutural no edifício, com uma nova galeria para receber as grandes máquinas industriais - que tiveram de ser serradas a meio e depois remontadas para passarem pelas portas. "Em Portugal, arranja-se sempre solução para tudo. Isto era impensável em França", diz Zeitoun, rendido à "capacidade muito portuguesa" de encontrar soluções imaginativas para grandes dificuldades...
Num atelier que fornece às costureiras e artesãos alfaiates confortáveis condições de trabalho, vão ser fabricadas artesanalmente fatos por medida e à medida dos desenhos dos designers das grandes casas de moda de todo o mundo. "É preciso criar condições logísticas para que os mais jovens tenham motivação para aprender estes saberes e práticas artesanais", diz Zeitoun, que vê nisto também uma forma de reagir contra a crise económica que afecta o mundo, e ao mesmo tempo uma alternativa à grande indústria pesada, cuja poluição está a destruir o Planeta.
Se o trabalho decorrer de acordo com as expectativas, e o optimismo militante deste empresário, a equipa de trabalhadores poderá duplicar dentro de algum tempo, e associado ao atelier poderá mesmo nascer um centro de formação. Para já, as atenções estão viradas para a confecção do primeiro fato, concebido e executado por José Gonzalez, que deverá ficar pronto na próxima semana.
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